As abelhas

as_abelhasO pânico foi crescendo aos poucos. Para Miguel, era como se a morte estivesse presente naquele pequeno inseto. E, de fato, estava: uma picada e… Crispado, afastou o pensamento. Morrer, nem pensar! Pegou seu kit de emergência, encontrando a Cortisona e um inalador para desobstrução brônquica. Então, sentindo uma nova onda de terror, perguntou a si mesmo: “Onde está a caneta de Epinefrina? Onde está?”

A abelha, por outro lado, tão logo passou a porta, manteve um voo suave e indiferente, quase em câmera lenta. Girou acrobaticamente uma, duas vezes; não foi em direção a janela. Subiu quase ao teto e, descendo com destino certo, pousou no ombro daquele homem.

Miguel perdeu todas as forças, a vista escureceu rapidamente. Sem a caneta de Epinefrina, tinha a si mesmo como um homem morto. E quando ouviu uma voz estranha em seu ouvido, teve, praticamente, a absoluta certeza de que se encontrava no céu.

A voz ecoou novamente:

— O que deseja, mestre?

Manteve os olhos fechados. Uma vontade mórbida de rir enchia-lhe o peito. “Estou morto, mortinho”, pensou outra vez. Estava, entretanto, enganado, e a voz o assegurou da realidade:

— Mestre, vejo que o senhor não passa bem. Embora nós, abelhas, não possamos fazer muito caso venha a desmaiar, dou-lhe a minha palavra de que tentaremos ajuda-lo. Juntas, podemos ligar para os bombeiros, caso seja necessário, mas infelizmente não seremos ouvidas, pois não há outro na Terra, senão o senhor, que ainda é capaz de nos escutar.

Dessa vez, teve outro pensamento: “Ainda não morri! Na verdade, sofro os delírios da ferroada. É isso!”

A abelha prosseguiu:

— Ou, se preferir, posso ferroa-lo.

Diante disso, e tomado por uma súbita coragem, Miguel enxotou o inseto com brutalidade.

— Vá embora! Agora!

Pairando diante de seus olhos, a abelha foi categórica:

— Mestre, permita-me esclarecer…

Então, explicou-lhe sucintamente a verdade e, também, o motivo pelo qual Miguel sempre fora levado a acreditar que era alérgico a certos insetos himenópteros, apídeos e meliponídeos.

Assim, passando de um instante para o outro, de um sujeito comum a Rei das Abelhas, e lembrando-se do ódio que alimentava pela vizinha, uma senhora arrogante e infame, odiosa à todas as crianças do bairro, assim como fora para ele quando mais novo, requisitou seu primeiro desejo:

— Matem-na!

— Pois bem, mestre — disse a Abelha-Conselheira, compreendendo, de imediato, o sentimento presente naquele pedido. — Seja paciente e o atenderemos.

Um exército foi convocado e, ao longo de um mês, as abelhas transformaram o jardim seco e esquecido da velha senhora, em um pequeno éden de espécimes botânicos dos mais coloridos e variados, e de tal forma ocorreu a mudança, que a própria mulher, outrora desprezível, floresceu e transformou-se em outra.

A Abelha-Conselheira levou a notícia a Miguel:

— Está morta, mestre.

Esse, vendo-a mais viva do que nunca, rebelou-se, pedindo explicações imediatas, ao que lhe foi respondido:

— Mestre, o ferrão que carrego não me deixa mentir, e por isso posso assegurar: não há violência que faça o mundo melhor.

Gustavo Scussel

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Os furos

os_furos“Não me ponha cueca velha para sair”, cansara-se de ouvir da mãe desde pequeno. Ainda assim, nunca mudara o hábito: as cuecas velhas, diga-se, davam-lhe uma aprazível sensação de liberdade. De fato, gostava tanto que nem sequer fazia distinção entre os dias, pois usá-las no domingo ou na segunda, fosse dia de descanso, fosse dia de aula, dava no mesmo. Com efeito, manteve o costume até o dia em que noivou. A mãe mudou um pouquinho só o aviso: “Não me ponha cueca velha para se encontrar com a sua futura mulher.” Silvério, entretanto, continuou dando de ombros, até o dia que a mãe asseverou: “Ainda vai se arrepender.”

A tragédia anunciada: não reparou o carro que avançou o semáforo. Rolou sobre o capô e, passando por todas as variáveis de um conjunto infinito de probabilidades, teve somente a calça rasgada pelo ferro da antena. Quando caiu no chão atrás do Opala, estava apenas de camiseta e — quem diria, senão a própria mãe de Silvério — de cueca furada.

Estampou a capa do jornal. O editor teve o cuidado de cobri-lo com uma tarja preta, mas a história correu mesmo assim. Narrada pelos presentes no dia, o ponto alto concentrava-se no furo; era no furo que estava cinquenta por cento daquilo que o definia como homem. “Cinquenta por cento, redondo”, diziam. “No duro?”, alguns perguntavam. “No mole”, respondiam outros no escracho.

Para Jacira, a noiva, foi uma vergonha sem precedentes. “Não me caso mais! Não com um sujeito que anda com a cueca furada”, bateu o pé, decidida, atordoada, arrependida. Diriam, até, intimamente ferida.

“Uma freada, vai lá”, disse o pai. “Para uma freada tem remédio. Pode-se culpar um medo súbito, uma indigestão, até mesmo um falso gás. Mas para cueca furada…”

“Não há desculpa mesmo não”, complementou a mãe da noiva, enquanto costurava o fundilho das ceroulas do marido.

O casamento foi desfeito. Para Jacira, cuecas em bom estado virou pré-requisito. Afugentou, inclusive, diversos pretendentes. Perguntava, sem preâmbulos: “Tem cueca furada na gaveta?” Os sinceros, motivados pelo idílio e boa-fé, eram logo descartados. Os demais, logo desconfiavam de certo grau de loucura. Mas Jacira encontrou, ainda assim, um homem ousado e de roupas finas que quase se ofendeu com a pergunta. “Olhe bem para mim. Acha mesmo que tenho roupas furadas?”

Virou noiva outra vez. O rapaz a apresentou para a família durante um jantar. Jacira sentiu certo desgosto ou náusea por parte da sogra. “Essa vai ser abacaxi”, pensou. Ao final, urdiu com o futuro marido: “Sua mãe estava assim e assim comigo. Não gostei.” E ele: “Acontece, amor, que mamãe não gostou do seu vestido furado na axila.”

Desfez o casamento e pensou: “Silvério é o homem ideal.”

Até encontrá-lo novamente e perguntar: “Ainda tem cueca furada na gaveta?”

Gustavo Scussel

O cachimbo e a garrafa

o_cachimbo_e_a_garrafaO armazém de artesanato do senhor Adolfo era a única construção modesta em uma avenida dominada por arranha-céus de luxo. Era, também, a única feita de madeira, em vez de concreto e armação de aço, como as demais, e cuja fachada lembrava os clássicos saloons do Velho Oeste norte-americano. O interior surpreendia principalmente pelo espaço, que parecia ter horizontalmente o equivalente a um prédio de dez andares, e também pela qualidade e pelo brilho da madeira, do balcão às escadas, do assoalho às estantes, onde era possível encontrar desde pinturas de artistas independentes a objetos e brinquedos raros.

Adolfo, um velho senhor que possuía cabelos brancos apenas nas laterais e os penteava sempre para trás, abria seu armazém religiosamente de segunda a sexta, em horário nada ortodoxo para uma avenida que despertava às sete da manhã e dormia, com sorte, as dez da noite. Depois que todos os homens e mulheres, vestindo seus ternos e saias riscadas, desfilavam diante do armazém ainda fechado, surgia, a pé, Adolfo, com seu colete xadrez de algodão sobreposto a uma camisa branca, calça de sarja um pouco larguinha e um cordão de ouro que descia do cinto e subia outra vez em direção ao bolso, de onde sacava, de quando em quando, o relógio Tissot, que marcava sempre pontualmente nove e meia no exato instante em que enfiava a chave no tambor da porta principal do armazém.

Como o lugar sobrevivia em um endereço de alta rotatividade comercial, ninguém sabia dizer. Fato é que, mesmo com pouco movimento, havia sempre alguém adentrando o estabelecimento e fazendo tocar o sininho delicado e antiquado que ficava sobre a porta, um instrumento pavloviano que fazia Adolfo sorrir imediatamente para receber mais um cliente, a quem sempre amava e atendia com extremo zelo e educação. Coincidentemente, eles também passavam a amá-lo, mesmo que não soubessem dizer bem se era pelo zelo, pela educação ou pela amabilidade do dono.

Com setenta e um anos, Adolfo jurava que já tinha visto todos os tipos de cliente, mas conservava, em memória, os mais interessantes, como por exemplo, um senhor negro que mancava bastante mesmo apoiando-se na bengala. Chamava-se Sabino Cícero Pereira. Comprou meia dúzia de jogos de pega-varetas enquanto emitia uma risada buliçosa, e também dúzias de frade de tubinhos que serviam para prender dedos indicadores com um humor nada franciscano, além de sete grandes redes artesanais. Era tudo para o sobrinho travesso, justificou. Enquanto fechavam a compra no balcão, Sabino se sentou e puxou a barra da calça para refrescar a canela — apenas uma, pois a outra era uma prótese. Por fim, ofereceu para venda um cachimbo de meerschaum, um mineral original da Turquia, decorado com entalhes de madeira de lei e cerejeira. Adolfo comprou o cachimbo e a caixa de acrílico onde ficava guardado.

Além de Sabino, houve também uma cadeirante de beleza estonteante que cobria as pernas com uma manta escura e era acompanhada por uma moça pequena e visivelmente vaidosa que enfeitava os cabelos compridos com flores coloridas, e que, juntas, compraram quadros bucólicos, peixinhos de madeira pintados à mão, grãos de arroz desenhados milimetricamente e navios de escala média que tinham velas de pano de verdade. A moça pequena escolheu tudo à pulos tão levianos entre os corredores que mal parecia tocar o chão, e toda vez que Adolfo a espreitava com o sorriso no rosto para certificar-se de que não estava voando, ela o retribuía com um sorriso pueril e um olhar malicioso. Era graciosa e inspirava um júbilo tão autêntico que fazia Adolfo e Iara, a cadeirante, sorrir e desejar pular também, tanto que, algumas vezes, talvez por culpa dos neurônios-espelho ou do reflexo motor psicossomático que ignorava a limitação orgânica e concentrava-se exclusivamente na infinidade psíquica, fazia a manta saltitar, contradizendo a invalidez aparente. Adolfo se assustou quando isso aconteceu pela primeira vez, mas ao olhar Iara, que também o encarou, assustada pelo susto dele, resolveu cair na gargalhada porque ela assim o fez.

Depois de calculado o valor da compra, Iara tirou por debaixo da manta uma pequena garrafa, tão pequena que tinha a espessura e a altura de trinta moedas colocadas uma sobre a outra. O líquido azul possuía um contraste perfeito com a pedrinha que enfeitava o vidro e se parecia com uma tanzanita de cor esverdeada. Tratava-se, segundo ela, da água mais profunda e mais cristalina da Baía de Guanabara, e era, conforme a crença familiar, águas sagradas. Iara não soube estimar um preço, pois para ela, era como se tivesse que dar um valor a própria voz. Encantado pela garrafinha, Adolfo a arrematou por uma soma considerável, e a compra de Iara saiu de graça. Antes de ir embora, ela lembrou-se de pedir a Adolfo que jogasse fora uma lâmina transparente que brilhava em espectro violeta contra a luz. Adolfo ficou com a garrafinha e a lâmina, que mais se parecia com uma escama gigante.

Certa vez, Adolfo resolveu levar o cachimbo e a garrafinha como presentes para seu sobrinho e neta. O sobrinho, apesar de seus trinta e poucos anos, interessou-se tanto pelo presente que deixou de lado o fumo crioulo e foi logo comprar tabaco para o pito. Nas reuniões de família, passou a contar mais piadas e traquinar pequenas armadilhas contra os adultos e crianças. A neta, por sua vez, com treze anos e pouquíssima obediência, tratou logo de entornar o líquido da garrafinha à vista da primeira oportunidade, não obstante a todos os avisos de que não deveria ingeri-lo. Daí em diante, cresceu apaixonada por música e praia, com uma voz maravilhosa, capaz de arrepiar de emoção qualquer ouvinte, e um corpo encantador, hipnotizante. Um dia mergulhou no oceano e nunca mais foi vista.

Gustavo Scussel

O preferido

o_preferidoNo instante em que Bruno ligou o celular, iluminando, assim, parte do quarto, um dedo cadavérico saltou da tela. Uma unha fétida tocou-lhe o lábio, enchendo-o de asco. Completamente apavorado, sentou-se na cama e limpou a boca com as costas da mão às pressas, como se uma mosca varejeira tivesse pousado ali. Tremia e rezava, mantendo os olhos fechados com força. Sabia que, no íntimo, o que quer que estivesse acontecendo com ele, não se tratava mais apenas de um pesadelo, mas sim de seu futuro e, especialmente, da vida de sua irmã.

Na manhã seguinte, as olheiras denunciavam a noite em claro. Laís arriscou, tão logo saíram para o intervalo das aulas:

— Os sonhos voltaram?

— Pesadelos — corrigiu ele. — Na verdade, nunca pararam. Mas ontem…

Bruno crispou-se. Por um instante, viu novamente o dedo diante do rosto, logo após aquelas palavras que ecoaram com nitidez em seu sono.

— Mas ontem… ? — incentivou Laís.

— Esqueça. Não quero falar sobre isso.

— Que novidade! — exclamou, subitamente irritada.

Quando Laís virou-lhe as costas, Bruno, em um impulso familiar, a segurou pelo braço.

— O que você quer, hein?!

— Por favor, me entenda — pediu ele, o cansaço presente na fraqueza das palavras.

— Não, Bruno, não tem como! Tudo o que você faz é estudar e trabalhar; estudar para se tornar um médico e salvar a sua irmã, e trabalhar para ajudar nas despesas da casa. Mas enquanto faz isso, você se esquece dos outros e, principalmente, de si mesmo — disse, por fim, enfatizando sonoramente o final. — Por isso nós terminamos!

— Ela está morrendo — balbuciou Bruno, desarmando-a completamente.

Levemente balançada, Laís encheu os pulmões mais do que o normal, lutando contra os olhos marejados. Então, disse, segurando-o pela cintura:

— Ela tem uma doença rara, eu sei, mas isso não significa que sua irmã esteja morrendo.

— Está! Eu vi! Ele me falou!

— Ele quem? — perguntou Laís, assustada com o olhar de Bruno e sua repentina palidez.

A resposta, a descrição, a imagem, tudo, absolutamente tudo relacionado a ele, desapareceu da mente de Bruno, e antes que pudesse tentar descrevê-lo, o sino pôs fim ao intervalo.

— Descanse. Por favor, descanse — pediu ela, carinhosamente. — É disso que você precisa.

Quando as aulas acabaram, Bruno acelerou os passos em direção a sua casa, e quando deu por si, percebeu que errara caminho e acabara no calçadão do centro, onde uma menina o encarava provocativamete. Usava uma blusa de alcinha quase imperceptível de tão pequena, e um short cujo cós mal cobria a fineza da cintura. Parecia tão miserável quanto imoral, julgando pelo olhar quase pornográfico.

— Cê qué ela, num qué?

A pergunta (ou seria a mão em seu braço?) o assustou de forma excessiva. A senhora que o segurava era assombrosamente incomum, esquisita. Um de seus olhos parecia atrofiado, escondido na carne das pálpebras. O lábio superior era coberto por um buço repugnante e faltavam-lhe quase todos os dentes, tornando impossível uma leitura labial.

Bruno tentou se desvencilhar em vão. Ela repetiu:

— Qué ela, num qué? Qué sim que eu sei! Fica ca minha filha, fica!

Com um puxão, viu-se finalmente livre. A senhora, aos gritos, prosseguiu:

— E eu sei que ele te qué também! Cê vai morrer! Ahh, cê vai morrer! E num confia nela não, viu, filho? Num confia!

Chegou em casa com as palavras da velha machucando os seus tímpanos. Com o celular em mãos (apesar do medo latente), ligou para Laís. Foi sucinto quanto ao acontecimento anterior. E então, tomado por um choro incontido, disse:

— Ela falou que ele está atrás de mim! Ela falou!

— Mas quem é ele, Bruno? Fala! — exigiu, igualmente descontrolada.

— Não sei! É uma massa preta, sem olhos, sem nariz — começou, sentindo o suor escorrendo pela testa e, até mesmo, pela orelha. — É uma pessoa, eu sinto, mas… mas… — parou. A umidade no ouvido o incomodou a tal ponto que, irritado, sentiu-se obrigado a afastar o celular. Então, mal acreditando nos próprios olhos, viu, com uma clareza inconfundível, uma língua se movendo fora da tela do aparelho, lenta e ondulante, como uma cobra-cega dentro de um furo em um espelho negro.

Tomado por um pavor imensurável, correu para a mãe que andava sempre com um terço na mão. Ajoelhou-se e pediu socorro. Preparou-lhe um chá rapidamente, e enquanto Bruno bebia, tentava acalmá-lo com um gesto maternal inédito, dizendo:

— Descansa, meu filho. Descansa.

A vista escureceu rápido demais. Não, pensou consigo mesmo, ela jamais o chamara de filho, apenas de Bruno. A preferência pela irmã nunca foi um mistério.

Envolto por trevas, reconheceu o dedo e o restante da forma apavorante de seus pesadelos. A voz surgiu pesada, completamente audível.

— Sua vida pela vida de sua irmã.

Bruno entendeu, finalmente, o desejo de sua mãe.

Gustavo Scussel

O folião

bloco-de-ruaQuando a multidão reconheceu os estampidos de arma de fogo no meio da folia, o reco-reco deu lugar ao corre-corre. A polícia entrou rapidamente em ação, prendendo os envolvidos na troca de tiros. O motivo, conforme seria averiguado posteriormente, constataria o clássico: excesso de álcool. Assim sendo — e após uma varredura minuciosa à procura das cápsulas disparadas e possíveis vítimas —, asseguraram novamente a paz, e pouco a pouco os blocos carnavalescos retornaram a festa. Em boletim, o tenente responsável informou que ninguém fora alvejado. Estava, entretanto, enganado.

Rafael e os dois amigos correram o máximo que puderam em clima de Deus nos acuda. Distantes da confusão, começaram a rir ofegantes, sentindo os efeitos da atividade física inesperada. Samir e Tácio demonstravam cansaço com razão, pois eram, indubitavelmente, sedentários: não praticavam qualquer esporte e nem sequer possuíam hábitos saudáveis. Por outro lado, Rafael era o exemplo de vida equilibrada: corria sete quilômetros por dia, de segunda a sábado, não bebia ou fumava. Exatamente por isso, estranhou a vista turva e a exaustão. Sentiu uma pontada acima do quadril, típica de desportistas iniciantes. Olhou para o local da dor sobre a camiseta e estranhou a cor. O tom definitivamente não fazia parte do abadá. Subitamente se desequilibrou, caindo sentado.

A ambulância chegou em questão de minutos. Colocaram-no na maca e iniciaram o atendimento a caminho do hospital. Fizeram as perguntas de praxe — nome, idade, como estava se sentindo e alergias —, ao que Rafael respondeu:

— Penicilina, Dorflex e carnaval.

Isabel e o enfermeiro não reprimiram a gargalhada.

— Ingeriu álcool? — prosseguiram.

— Não. Só água mineral — respondeu; se fazendo referência a uma das marchinhas mais famosas de carnaval ou não, os socorristas não souberam afirmar. Ainda assim, riram do humor da vítima. — Além disso — acrescentou —, não bebo álcool.

A resposta surpreendeu a ambos, especialmente Isabel. Tanto que buscou um pretexto a fim de constatar seu hálito. De fato, dissera a verdade, e graças a esse pequeno subterfúgio, Rafael pôde vê-la sem a máscara. Então a elogiou, com sinceridade:

— Você é bonita.

Isabel agradeceu sentindo o rosto corar de maneira inédita. O outro socorrista debochou:

— Não é não.

— Devo estar perdendo muito sangue então — comentou Rafael.

Quando chegaram ao hospital, ele, cochichando e um pouco preocupado, arriscou:

— Se eu sobreviver, aceita sair comigo?

— Você vai sobreviver — respondeu Isabel, explicando, na sequência, que a bala não acertara qualquer órgão e a hemorragia fora perfeitamente estancada.

Olharam-se por um instante.

— Isso é um “sim”?

Ela sorriu no instante em que o tiraram da ambulância. De fato, sobreviveu, e ganhou, como recordação, sete pontos no abdome e o número de telefone da enfermeira.

Seis anos após o incidente, Rafael ainda culpa os amigos por o levarem a força para o carnaval; Isabel, por outro lado, os agradece. A propósito, Samir e Tácio serão os padrinhos do casamento que acontecerá na sexta que antecede a quarta-feira de cinzas. Portanto, “Save the date”.

Gustavo Scussel

Por amor

mtmzcw2Fnq1sj92x4o1_500“Ficou louca por amor”, é o que diziam.

Flávia conheceu o rapaz na rua, aos quinze anos, voltando do colégio. Por um breve instante teve a impressão errada. Pensou, é verdade, em um provável assalto. Tiago, apesar da roupa humilde, a abordou com o intuito de elogiá-la. Fez, inclusive, uma boa leitura do momento, desculpando-se premeditadamente por suas maneiras. Com tão pouca gentileza e educação nas palavras, ele a tranquilizou, e ela, por sua vez, permitiu a aproximação.

Tinham apenas dois anos de diferença na época. Ele, experiente, apesar dos dezessete, executou a corte moderna com maestria: na primeira semana, ajudou a carregá-la a mochila da escola; na segunda, pagou um açaí; na terceira (julgando-se atrasado duas semanas), a levou ao baile funk e perverteu sua pureza, após arrastá-la para casa. Tiago, no entanto, não a descartou, como se fosse objeto. Pelo contrário: não recuou em nada, absolutamente nada. No dia seguinte, lá estava, pronto para ajudá-la a carregar a mochila. Flávia, nas nuvens, apaixonou-se por completo e, sem querer, esqueceu-se de Arthur, seu vizinho.

O vizinho não teve a mesma sorte que Tiago; sorte ou iniciativa, diga-se. Excedia, em Arthur, educação e respeito em relação a Flávia. Tanto que, por medo, sequer a tocava no braço, receoso em ofendê-la. Mesmo assim, mostrava-se presente de todas as maneiras possíveis. Ajudava-a nas lições de casa (embora estudassem em colégios diferentes), presenteava-a em todas as datas especiais (aniversário, Páscoa, Natal) e a mimava com chocolate branco (ela odiava o preto) uma vez por semana, sempre às sextas-feiras. Quando Flávia começou a percebê-lo, Tiago cruzou seu caminho.

Aos dezoito anos, ela se mudou com Tiago. Os primeiros dias em uma situação nova e agradável foram maravilhosos para Flávia, mas acabaram abruptamente quando ele chegou, certo dia, alterado em casa, depois de uma partida de futebol com os amigos. Ela demandou explicações e, como resposta, viu, em câmera lenta, o punho acerta-la em cheio. A vista escureceu e desmaiou. No dia seguinte, apesar da vista normal, não voltou a encontrar luz: a casa agora era dominada por uma atmosfera instável e sombria. Viveu, em síntese, três anos horríveis, quando finalmente fugiu para a casa dos pais.

Arthur, ainda vizinho, encheu-se de felicidade ao saber da separação, e também de ódio, ao tomar conhecimento do motivo. Tanto que, abandonando os bons modos, procurou Tiago e lhe deu uma tremenda surra. Voltou decidido a cuidar de Flávia, tratando-a, dia após dia, com extrema cortesia, atenção, carinho e presteza.

Depois de anos, Flávia notou as atitudes amorosas do vizinho. Sonhando acordada — alguns diriam —, olhou-o profundamente, sorrindo e suspirando. Arthur reparou e, comovido por seu olhar, perguntou, carinhosamente:

— O que foi, meu anjo?

Ela, ainda aérea, suspirando e sorrindo (agora diriam delirando), respondeu:

— Eu só queria que o Tiago me tratasse assim…

Ficou louca pouco depois, por amor.

Gustavo Scussel

Perigosa imaginação

divorce460— Sonhei com você essa noite — confessou alegremente. — Nós dois… Sabe? Foi tão lindo!

Lisete, no entanto, se zangou; parecia ofendida, relegada a objeto. Irritada, asseverou:

— Pois não deveria.

Otávio caiu das nuvens.

— Por que não, amor?

— Porque não, e ponto final.

— Mas…

— Sem “mas” — cortou ela. — E aviso: não quero que sonhe ou pense em mim dessa forma. Entendeu?

Confuso, perplexo, até, Otávio consentiu. Pensou, de fato, em argumentar, dizer que, se fosse para sonhar com alguma mulher, o ideal seria justamente ela, não outra. Afinal, Lisete era sua namorada.

Encerrado o encontro, que não passou, como sempre, de alguns poucos beijos e carinhos, foi embora pensativo. Em casa, refletiu sobre a atitude de Lisete. Não compreendeu o motivo da revolta. O que poderia um sonho tão amoroso, ter de tão errado? Esquentou a cabeça, mas não soube responder; e, como remédio para esfriá-la, entrou no chuveiro.

Durante o banho, resgatou o sonho. Lembrou-se dos detalhes e misturou a imaginação com a realidade, evocando o cheiro da namorada, o sorriso e a textura dos lábios. Logrou-se quiromaníaco pela primeira vez. Secou-se feliz, sem culpa e ressentimento; trouxera à lembrança o melhor de Lisete e encontrara satisfação nesse onanismo criativo.

Os sonhos tornaram-se frequentes, normais. Otávio, evidentemente, guardou-os para si. Encontrava Lisete e namorava sem receio. Estava mais apaixonado, verdade, assim como ela. A relação, que se estendia por dois anos, já tinha o consentimento dos pais. Assim, ao completarem a idade apropriada, ficaram noivos.

Casaram pouco depois, no civil e no religioso, em uma sexta e sábado, respectivamente. A cerimônia na igreja, embora simples, foi encantadora, condizente com a família humilde e extremamente católica de ambos. A festa modesta agradou todos os convidados, mesmo sem requintes. Os noivos jantaram, trocaram-se mais tarde e despediram-se rumo ao aeroporto, onde tomaram o avião com destino ao nordeste paradisíaco, de piscinas de águas claras e mornas, corais e areias brancas.

Chegaram pela manhã bem dispostos, apesar da viagem cansativa, e desprezaram, de imediato, um passeio pelas praias. Desejavam, sem sombra de dúvidas, apenas o quarto, a companhia e a intimidade. Estavam, finalmente, em plena lua-de-mel, e ambicionavam-se como nunca. Diante da bela paisagem na varanda, declaram-se novamente, e o beijo que trocaram, acabou levando-os para a cama.

Revelaram-se cada qual em seu próprio tempo. Enfim desnudados, pediram perdão em tom de prece, apenas para si mesmos, para o pecado original que, entretanto, não aconteceu. A mãe a prevenira da possibilidade, só não contara as razões. Otávio, por outro lado, não entendeu nada. Falhar, na primeira vez? Julgou pouco provável, tratando-se, naturalmente, da primeira.

Lisete, carinhosa, temendo, inocentemente, talvez, alguma indisposição de saúde, perguntou:

— Está tudo bem?

— Está sim — respondeu Otávio, perturbado. — Isso não acontece quando te imagino.

Crispou-se diante da confissão do marido. Vestiu-se como pôde, às pressas; pegou a bolsa e saiu.

Um mês depois, Otávio recebeu o pedido de divórcio.

Gustavo Scussel